EntretenimentoFilmes

MARCADOS PARA MORRER

Filme O Agente Secreto

Por Cícero Rogério do Nascimento

Era para ter escrito há mais tempo. Mas uma coisa que até agora não sei explicar e que ainda me inquieta, e pode ser apenas uma impressão, mas como sou canceriano e sinto tudo dos outros em mim, preciso, às vezes, me afastar do mundo e de pessoas, para continuar vivendo em paz comigo mesmo, sem muita afetação.

Às vezes não consigo porque me moldei, ou fui moldado, pela inquietude do pensamento, muito mais do que da ação, embora penso que pensar é ação no mundo, é viver, como para mim, o cinema também é vida.

A vida na tela de Kleber Mendonça, ou melhor, em tela, com Wagner Moura e grande elenco em “O Agente Secreto” traz à tona o Brasil contemporâneo, embora a história do professor universitário, Marcelo, esteja datada em 1977, durante a ditadura militar e civil, a qual o Brasil ainda está ligado.

Se não curte spoiler, pare de ler aqui. A metáfora construída pelo cineasta Kleber Mendonça, que assina o roteiro e a direção da película, apresenta tudo aquilo que deveríamos ter superado se não tivéssemos vivenciado o que a violência nos tornou como gente brasileira, como identidade de uma nação perdida em busca de si mesma, e fez de outras gentes deste País coisas repugnantes e bárbaras capazes de defenderem com unhas, dentes e intestino a repressão, as torturas, os grupos de extermínio civis e militares, a morte encomendada, matada e assassinada, executada por pistoleiros, empresários, políticos e pelo cidadão comum.

O Brasil é como o personagem Marcelo. Coitado, perambula de um lado para o outro atrás de viver sabe-se lá como, mesmo destroçado pela morte da esposa, sem emprego, na esperança de deixar o Brasil com o filho pequeno e reconstruir os laços afetivos. É um Brasil que sempre andou na corda bamba, como um equilibrista, ou pior, um trapezista sem a rede para amortecer a queda.

Eles, Marcelo e o Brasil, às vezes, encontram instantes de paz, no gozo do sexo, no bloco de Carnaval, nas conversas com os outros eus, pessoas que também foram juradas de morte por um poder que quer se passar invisível, mas que está sempre à espreita, em todo lugar, apenas esperando a hora certa para agir.

O filme “O Agente Secreto” me fez retomar um conceito da sociologia do francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que define o Poder Simbólico como uma estrutura social, cujo domínio é introjetado em nós, sem a gente se dar conta dele. É um poder invisível, mas que é legitimado pelo prestígio, pela posição social no campo ao qual o “agente secreto” está ligado, no qual ele vive para nos atazanar, para exercer domínio sobre nossos corpos.

É assim, segundo Bourdieu, que introjetamos o Habitus. Atenção, não confunda com hábito. A relação social bourdieusiana é muito mais complexa. Mas aqui, basta saber que como indivíduos, internalizamos o Habitus que se torna parte de nossa identidade, de nossa subjetividade, a partir das relações que estabelecemos, nos diversos campos sociais aos quais estamos inseridos, e os quais vivenciamos.

Não fique triste, porque diferente do sociólogo alemão, Max Weber (1864-1920), que disse mais ou menos assim: o capitalismo nos prende numa jaula, cuja chave nós mesmos jogamos fora, Bourdieu, digamos, estava mais afinado com as ideias de outro sociólogo alemão, Karl Marx (1818-1883), que como muita gente sabe, dissecou o capitalismo e mesmo assim foi capaz de construir uma Utopia, a qual muitos militantes se agarram nela até hoje, a revolução, o socialismo científico, ou em termos contemporâneos, o ecossocialismo. Trata-se da capacidade que o ser humano tem de interferir a tal ponto na sociedade que é capaz de mudar a História.

Talvez Bourdieu, do fundo coração, do meu, não do dele, também acreditasse nesta ou em outras utopias, porque como exímio leitor e intérprete dos clássicos fundadores da imaginação sociológica, o sociólogo francês criou outro conceito chamado de Estruturas Estruturantes e Estruturas Estruturadas, o que pode ser dito da seguinte forma: assim como a sociedade nos molda, também podemos moldá-la.

Como disse a atriz Fernanda Montenegro, esperança é verbo de ação. E para mim, moldar a sociedade é um caminho para a Utopia. É ver o cinema brasileiro como propulsor de vida, como ação-reflexão, como agir no mundo.

Agir pelo pensamento é uma capacidade demasiada humana porque nos nossos micros espaços de atuação podemos sonhar, imaginar, criar, desenhar, ler,  pensar, viver um outro Brasil, menos fascista, menos xenófobo, menos racista, menos capitalista, menos violento, sem arminhas ou fusíveis, com mais diversidade, com mais alteridade, com mais vida.

Embora todos nós, de certa forma, estejamos marcados, jurados de morte, a vida ainda se apresenta como Utopia. É como assistir a um filme numa sala escura de cinema, cuja luz abre-se para os seus olhos, para o seu pensamento, para o seu corpo, naquele instante de vida.

Ver “O Agente Secreto” é de certa forma desnudar o Brasil. É como se a gente se visse nu na tela, tendo a esperança de que algum dia, alguém, alguma pesquisadora, repórter, poeta, escritor, jornalista, como mostra o filme, se interesse pela vida vivida, do Marcelo ou do Brasil, para revelar nossa História, quem somos e o que nos tornamos ou quem ainda podemos ser ou nos tornar.

Imagem: Moldura de Prints/ Trailer de “O Agente Secreto”

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo